Martin Parr não liga se você instagrama o seu almoço

martin-parr-coverTorta de carne e queijo stilton e fish and chips: a comida perfeita para uma tarde ensolarada, mas sorrateiramente fria em Londres. Estou no Kennedy's, na Whitecross Street, bem na esquina do Barbican. É a hora do almoço de um dia de semana e o lugar está movimentado, com uma fila enorme de gente querendo levar comida para viagem. Salsichas e tortas perfuradas com bandeirinhas que esclarecem seus conteúdos são mantidas em temperaturas estáveis nas estufas, sob o olhar faminto da turma do almoço. Sachês de molho são agarrados de forma indiscriminada e placas escritas à mão decoram as paredes.

Estou aqui para almoçar com o fotógrafo Martin Parr.

"Não queria um ambiente de restaurante chique. Isso aqui é rápido e sujo — e gostoso," ele me diz enquanto nos sentamos.

Isso faz um pequeno desserviço à macia massa recheada de carne e as batatas chips cortadas à mão que logo chegam à nossa mesa. Mas a escolha de Parr também tem a ver com o fato de que o restaurante fica perto de seu estúdio em Londres, e sim — ir almoçar com Martin Parr num lugar chique seria um pouco desonesto.

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O restaurante de fish and chips Kennedy's, em Londres. Foto por Liz Seabrook.

Isso porque as fotos de comida de Parr são a verdadeira antítese do "food porn" que infesta nossas timelines de redes sociais. Uma folheada em livro Real Food, que traz mais de 200 de seus cliques feitos ao redor do mundo durante duas décadas, revela uma obsessão com as refeições pré-preparadas sem nenhum tipo de valor nutricional que mesmo o melhor dos marketeiros teria dificuldade em transformar em modinha. Imagine salsichas gordurosas acompanhadas de vegetais enlatados e um purê de batata gosmento, latas de Spam (carne enlatada criada nos Estados Unidos), e bolos fluorescentes. Parr me diz que ele está numa missão para destruir "todo esse esnobismo da comida, as modinhas de comida."

Apesar de Parr comer a maioria dos alimentos processados que fotografa, ele confessa que é meio "foodie." Na verdade, uma das coisas que ele mais gosta de fazer em suas viagens frequentes é experimentar a culinária local. A peruana e a japonesa são suas favoritas.

É só que... bem, as porcarias são mais interessantes de se fotografar do que vieiras frescas ou um ceviche naturalmente fotogênico.

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Não é uma foto do Martin Parr: torta de carne e fish and chips no Kennedy's, acompanhados de uma cópia do 'Real Food'. Foto por Liz Seabrook.

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Abergavenny, Monmouthshire, País de Gales, 2003 © Martin Parr / Magnum Photos.

Por mais de 40 anos, Parr tem documentado as adoráveis e absurdas idiossincrasias da vida cotidiana — como nos vestimos, relaxamos, os objetos de que gostamos — mas foi apenas depois de comprar um ring flash na metade da década de 1990 que a comida virou parte de seu repertório. Proporcionando uma iluminação uniforme em toda a imagem, com poucas sombras, como o flash circular não há onde se esconder.

"É muito democrático e objetivo," diz Parr. "É esse o segredo."

Na hora de se preparar para a foto, ele é um oportunista e quase sempre fotografa na correria.

"Coloco o flash circular, vou por cima e clico — se eu tiver com a câmera certa," explica. "Na maior parte do tempo não estou."

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Abergavenny, Monmouthshire, País de Gales, 2003 © Martin Parr / Magnum Photos.

Parr não constrói suas imagens, mas não vê problema em quem organiza a mesa para aquela foto perfeita pro Instagram: "Beleza, bem-vindo ao clube!" Na verdade, o equívoco moderno de instagramar todas as nossas refeições fascina Parr, e ele fala entusiasmado sobre ter recentemente flagrado duas turistas japonesas tirando fotos de suas refeições, após estar "atrás de uma boa foto de comida" por muito tempo. Tem um projeto aí em algum lugar, sem dúvida.

A relação britânica com a comida mudou de maneira incalculável durante a vida de Parr.

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Foto por Liz Seabrook.

"Meio que foi de um extremo ao outro, de serem completamente indiferentes à comida aqui [no Reino Unido] a se tornarem completamente obcecados," diz.

Parr mal lembra o que comia em sua infância no suburbano e "sem graça" condado de Surrey, ao sul de Londres, nos anos 1950 e 60, apenas carne assada e fish and chips em viagens "muito formativas" para visitar seus avós em West Yorkshire (seu avô era um entusiasmado fotógrafo e deu a Parr seu primeiro livro de fotografia.) O primeiro ensaio fotográfico de Parr, em 1967, retratava o restaurante de fish and chips original Harry Ramsden (agora uma cadeia nacional) em Guisely, perto de Leeds.

"Era muito sofisticado, tinha um piano. Era ambicioso," lembra.

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Wells, Somerset, Inglaterra, 2000 © Martin Parr / Magnum Photos.

Apesar de Parr me implorar para sair pelo resto da Inglaterra "na função MUNCHIES," nós dois, que passamos um tempo da infância na costa de Yorkshire, tivemos uma longa discussão sobre os méritos do fish and chips em Scarborough versus Whitby. Parr também me diz que ele não imagina uma "melhor capital culinária" com uma variedade e qualidade tão "impressionante" como Londres, uma ideia que deve "aterrorizar" os franceses, sugere com um sorriso irônico.

Suas lentes, no entanto, sempre foram atraídas pelo tipo de comida que evoca um sentimento local: a venda de bolos para os samaritanos em Dorset, escargots temperados com manteiga de ervas em Paris, cachorros-quentes em uma rua de Nova York. Crianças do subúrbio frequentemente se sentem sem raízes, e Parr é fascinado pela maneira que a comida é ligada com a identidade nacional e regional.

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Foto por Liz Seabrook.

No meio do almoço, Parr volta sua atenção para o purê de ervilhas dentro da tigela ao lado de seu bacalhau e o afoga em vinagre.

"Vinagre nunca é demais no purê de ervilhas," anima-se.

Que coisa mais britânica.

Fonte: Tom Jenkins em Vice Brasil, tradução de Taís Toti

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