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As astúcias de um intérprete da Antiguidade

por José Otávio Guimarães*

Quem se interessa pela noção de antropologia histórica não ficará decepcionado ao se debruçar sobre a obra, em sua maior parte publicada na segunda metade do século XX, do filósofo, historiador e helenista francês Jean-Pierre Vernant (1914-2007). Foi em torno dele e de sua base institucional, o Centro Louis-Gernet de pesquisas comparadas sobre as sociedades antigas, que um grupo de pesquisadores se reuniu, em meados dos anos 1960, para constituir o que ficaria conhecido, na república internacional do classicismo universitário, como Escola de Paris.

Sob o impulso desse professor do Collège de France, desenvolveram-se trabalhos fundamentais – como os de Marcel Detienne, Pierre Vidal-Naquet, Nicole Loraux e François Hartog –, responsáveis por renovar os estudos sobre a Antiguidade mediante a utilização de conceitos oriundos do aparato crítico das ciências sociais. Os livros de Vernant estão quase todos publicados no país e continuam a exercer forte influência sobre os mais variados campos das humanidades brasileiras.

Destaca-se logo da contribuição de Vernant seu esforço de relativização do legado cultural grego, sua crítica a um humanismo tranquilizador. Sua antropologia histórica empenhou-se em tomar distância de uma memória europeia que fizera do mundo helênico a origem, a infância, o primeiro balbucio da razão ocidental. O objetivo principal dessa crítica – apresentada, inicialmente, no artigo ‘Do mito à razão’ (1957) e no pequeno grande livro As origens do pensamento grego (1962) – era desmontar a tese do chamado 'milagre grego', ou seja, duvidar da ideia de que, nos séculos VI e V a.C., o lógos (razão), por meio de uma 'revelação decisiva', ter-se-ia 'libertado do mito como as escaras caem dos olhos do cego'.

Segundo essa tese, de uma hora para outra, em algumas pequenas comunidades urbanas nas bordas do mar Mediterrâneo, mais particularmente em Atenas, a razão, a verdade, a ciência, a arte, a política, a literatura do Ocidente teriam sido descobertas por gregos geniais. Contra essa perspectiva de um 'começo absoluto', Vernant tratou de dar historicidade às múltiplas formas da racionalidade grega.

Para compreender a mutação mental e a nova atitude intelectual dos helenos, Vernant recuou longe no tempo: identificou elementos da cultura indo-europeia que, desde 2000 a.C., haviam sido introduzidos com os mínios na península balcânica, mostrou como esses elementos ganharam forma na civilização micênica (ap. 1650-1200 a.C.) e adquiriram nova fisionomia com a chegada dos dórios (ap. 1200 e 1100 a.C.).

Não se contentou, contudo, com esse recuo no tempo. O helenista comparou esses elementos com outros, também presentes no mar Egeu ou no seu entorno, como os dos Estados teocráticos do antigo Oriente Próximo e os da singular cultura cretense (ap. 2500-1100 a.C.). Verificou, nesse caso, a existência de empréstimos e recusas intercivilizacionais.

Só mediante esse duplo esforço, nos eixos do tempo e do espaço, conseguiu explicar como, por volta dos séculos IX e VIII a.C., ganhou corpo em terras gregas uma nova e original forma de organização sociopolítica, a pólis (cidade-Estado), no seio da qual se desenvolveram, nos quatro séculos seguintes, diferentes expressões da razão grega: a organização democrática, a reflexão pré-socrática, a narrativa dos historiadores, o espetáculo trágico, a investigação médica, a filosofia, apenas para citar exemplos de intensa repercussão na tradição ocidental.

Inteligência ardilosa

Um dos trabalhos mais interessantes realizados por Vernant, em parceria com M. Detienne, foi dedicado a uma pesquisa sobre os usos, em contextos discursivos diversos, da palavra grega métis. Eles perceberam, desde o início da investigação, que não podiam deixar de conjugar dois universos simbólicos em que a palavra se manifestava. Como substantivo comum, métis significava uma forma particular de inteligência, uma espécie de prudência avisada, razão astuciosa, habilidade ardilosa, de que nosso brasileiríssimo termo ‘malandragem’ poderia bem dar conta.

Como nome próprio, Métis era, na mito-religião dominante no mundo helênico, uma divindade feminina, filha de Oceano e primeira esposa de Zeus. Conta-se que, ao engravidar de Atena, tomando a forma de uma gota d’água, foi engolida pelo marido, que a reteve em seu ventre. Desde então, naquele mundo, ninguém podia mais medir-se em inteligência astuciosa com o deus soberano dos olímpicos.

Vernant e Detienne descobriram que a métis recobria na civilização grega antiga um vasto território. Ela se encontrava disseminada no vocabulário de atividades que envolviam, por exemplo, armadilhas de caça, redes de pesca, a arte do cesteiro, do tecelão e do carpinteiro, a sabedoria do navegador, o faro do político, o olho clínico do médico, o jogo de enigmas e adivinhações ou o ilusionismo retórico dos sofistas.

Ela era usada, igualmente, para caracterizar as qualidades de certos animais: os dribles da raposa, o polimorfismo do polvo ou o poder de confusão causado pela bolsa negra do molusco marinho sépia. A pesquisa verificou, assim, que se tratava de um tipo de inteligência comprometida com a prática, confrontada por obstáculos (aporias), que eram sempre superados por variados ardis.

Métis, desse modo, não podia ser entendida como um conceito, uma noção clara e distinta. Vernant e Detienne não fizeram uma história da ideia de métis na Grécia pelo simples motivo de que ela não era uma ideia. As formas dessa inteligência ardilosa, dessa astúcia adaptada e eficaz nunca foram objeto no mundo grego de uma formulação explícita, de uma análise conceitual, de uma exposição de ordem teórica.

Não se conheciam tratados sobre a métis – como se conheciam sobre a lógica –, nem sistemas filosóficos construídos sobre os princípios dessa inteligência ardilosa. A presença de métis no universo mental dos gregos só se ofereceu à decifração pelo jogo das práticas sociais e intelectuais; práticas que, na maioria das vezes, não se preocupavam em explicitar sua natureza ou justificar seus procedimentos.

Compreende-se, portanto, por que o pensamento filosófico grego que se consolidou a partir do século IV a.C. estabelecendo uma dicotomia radical entre o ser e o vir-a-ser, entre o inteligível e o sensível, deslocou para suas margens (ou simplesmente ignorou) a prática intelectual da métis, que combinava habilidade da mão, faro, sagacidade, capacidade de previsão, sutileza de espírito, fingimento, desembaraço, atenção vigilante e senso de oportunidade.

Além disso, como esses comportamentos intelectuais característicos da métis aplicavam-se normalmente a realidades fugazes, móveis, desconcertantes e ambíguas, que não se prestavam à medida precisa, ao cálculo exato ou ao raciocínio rigoroso, não puderam ser reconhecidos pelo sistema antinômico da filosofia clássica, em que, de um lado, estava o conhecimento reto e firme, o uno, o imóvel e o limite, e, do outro, a opinião enviesada e flutuante, o múltiplo, o instável e o ilimitado.

Na verdade, um indivíduo dotado de métis, fosse homem ou deus, quando se via confrontado com uma realidade múltipla, mutável, cujo poder ilimitado de polimorfismo tornava quase inapreensível, só podia dominá-la, cercá-la no limite de uma forma única e fixa, apreendê-la enfim, mostrando-se mais múltiplo, mais móvel, mais polivalente ainda que ela. Para atingir seu objetivo, em meio a um mundo flutuante, oscilando sem cessar de um lado a outro, era preciso que o indivíduo de métis procedesse de maneira artificiosa e flexível.

No quadro da reflexão de Vernant sobre as origens da razão grega, essa pesquisa sobre a métis marcou uma guinada importante. Se, em um primeiro momento, o helenista refletiu sobre a questão a partir do esquema “do mito à razão”, em um segundo, ele constatou que, em função do campo discursivo investigado, o esquema não funcionava. No mundo helênico dos séculos VIII a IV a.C., havia mais razão no mito e mais mito na razão do que se imaginava.

As interferências entre esses dois termos, mito e razão, e entre eles e as realidades que designavam não eram as mesmas caso se analisassem diferentes práticas e linguagens, como a matemática, a medicina, o espetáculo trágico, o pensamento acerca da natureza, a retórica, a história e assim por diante. A inteligência astuciosa, métis, não ia nem do mito à razão nem da razão ao mito, ela habitava um lugar ambíguo entre os dois. Um bom indício da tomada de consciência por Vernant dessa guinada analítica foi a redação de ‘Razões do mito’, artigo que encerrou seu livro Mito e sociedade na Grécia antiga, de 1974.

A obra de Vernant, sublinhe-se, não se deteve unicamente na relativização da concepção grega de razão. O helenista expandiu sua pesquisa, interrogando as categorias helênicas de pessoa, tempo, espaço, trabalho, morte, amor, imitação, entre outras com forte presença na mentalidade das sociedades europeias. Por meio de um constante ir e vir temporal do universo moderno ao mundo grego, e vice-versa, o helenista contribuiu para a consolidação do que Michel Foucault chamou de “uma etnologia interna da cultura ocidental”.

Ele descortinou, assim, uma nova maneira de compreender a tradição clássica: não mais a repetição de velhos espectros sempre idênticos a si mesmos, portadores de valores essenciais de uma natureza humana eterna, mas, sim, a reinvenção constante das origens, assentada em uma história descontínua, ciente do caráter plástico de um homem sensível à dimensão transformadora do tempo histórico.

Antropologia histórica

O trabalho de Vernant marcou também a orientação metodológica que adotei em minha investigação historiográfica sobre a noção de antropologia histórica, já que, estudando categorias do pensamento grego, ele não as considerava como conceitos universais e imutáveis, mas como produtos concretos de uma atividade humana, definidos no tempo e no espaço, e, portanto, sujeitos a variações.

A perspectiva antropológica de Vernant, que caracterizou sua maneira de escrever sobre o passado grego, ajudou-me, desse modo, a entender o papel que a história antiga poderia desempenhar no âmbito das ciências sociais brasileiras.

Se é possível afirmar que, na Europa, a aproximação antropológica da Grécia contribuiu para o estabelecimento de uma distância frente aos Antigos, em um contexto em que a presença deles era quase que natural, pode-se dizer que, no Brasil, onde nem gregos nem romanos são considerados autóctones, caberia aos estudiosos das culturas clássicas se perguntarem, previamente, sobre as razões pelas quais deveriam ou não estabelecer relações com tais antigos. Em outros termos, os brasileiros deveriam, antes de mais nada, construir com gregos e romanos relações de pertinência, a fim de poder utilizá-los como referência cultural ou simplesmente estudá-los.

Enfim, trabalhos de antropologia histórica sobre a religião grega ou sobre a tragédia ateniense, como os que Vernant realizou, podem estabelecer uma relação com o presente, não por uma possível simetria de situações, mas porque estimulam leitores brasileiros, por exemplo, a se apropriarem de instrumentos críticos que podem ser úteis ao estudo e à compreensão de nossa própria sociedade.

* Professor do Departamento de História do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília e organizador, com François Hartog, de Os antigos, o passado e o presente (Editora UnB, 2003)

Fonte.

 

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